CONSTANCIA NÈRY TradicionalMente

revela, através da arte, lembranças de Manifestações Folclóricas


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terça-feira, 19 de março de 2019

Constância Nery - A emoção de sonhar a realidade


Constância Nery - A emoção de sonhar a realidade

Embora eu acredite que o termo “naïf”, ou a denominação “pintura naïve”, mereça primeiro uma reflexão aprofundada sobre a sua pertinência ou não, num texto breve como este entenderemos “naïf” na sua acepção primeira, isto é, a que vem do latim nativus, natural, espontâneo.
Pois Constância Nery é uma pintora espontânea e não ingênua, como a tradução da palavra naïf nos faz entender. Ela passou sua infância no campo, em contato com fazendas de café, de algodão, de arroz e com as festas e folguedos populares, razão pela qual guarda um imenso carinho e admiração pelo homem simples, rude, o camponês trabalhador que nunca perde sua dignidade. Freqüentou Universidades, vive e trabalha em grandes centros urbanos.
Há ainda uma outra razão que une Constância à pintura naïve; sua obra é resultado principalmente de sua emoção, mesmo que hoje ela domine a técnica pictórica, ela ainda conserva a espontaneidade com relação à forma e a cor que são sentidas emocionalmente e não estão à procura do real dos objetos; sua pintura nasce do coração, ela representa o que Wilhelm Uhde chamou de “os pintores do coração sagrado”. Sua pintura se baseia sempre numa invenção plástica constante, buscando na sua imaginação a justeza cromática e formal que produz um frescor particular nos seus quadros.
Para o historiador da arte, José Pierre, “o artista naïf quer mostrar a verdadeira face das coisas” e por esta razão ele recusa a arte acadêmica que artificializou demais o objeto, mas também não se pretende artista de vanguarda, ele se mantém sempre como “um primitivo de épocas futuras”, pois foi assim que a teoria da “necessidade interior” de Kandinsky, fundadora da arte moderna, nasceu também da redescoberta dos valores primitivos e originais que pertencem ao universo popular.
Constância Nery busca o poético, ela quer encontrar um mundo que está atrás do nosso mundo; ela questiona a verdadeira natureza da nossa realidade (J. L. Borges) ou mesmo as nossas estranhas realidades (Garcia Márquez). Metaforicamente como um ser transplantado (ela viveu o campo e veio viver na cidade), com gestos líricos e míticos, faz alusão as suas raízes, as suas memórias de infância e dialoga com o seu passado dentro de um universo pictórico ao mesmo tempo mágico.
Seus enquadramentos também são deliberadamente organizados para valorizar os efeitos emocionais, os personagens são centralizados, seus gestos são tradicionais e acentuam o valor da ação, mesmo quando as figuras que representam movimento são estáticas, como que fixadas, tomadas num momento, que se tornam estereótipos repetidos no mesmo ou em outros quadros. Mas a ausência de rigor na estrutura do espaço torna seu realismo original –  notemos nesta exposição, a grande diagonal do quadro Arrozal Doce, os planos de Amarrando a Cana ou ainda o uso que ela faz dos planos e das cores em Banana Ouro – quando a sua realidade é inventada.
Ela quer inscrever seu quadro na realidade tal qual ela vê, sem recorrer às formas convencionais da arte acadêmica, sem abdicar de uma rígida geometria na construção do quadro, mas não teme a frontalidade ou improvisação de uma perspectiva.
Os cabelos esvoaçantes das garotas nos folguedos infantis ou a sinuosidade dos rios e dos caminhos são pura emoção. O trabalho do artista naïf é de transformar o valor estético em sentimento, em valor ético, quer atingir o espectador pela sua emoção, a mesma emoção que tomou o artista no momento da criação da obra. 
Como artista latino-americana, Constância Nery é basicamente visceral; a emoção é o meio de que ela dispõe para fazer com que sua imaginação e sua memória a dominem, e assim, na procura da representação objetiva do objeto, ela pode transformar o real pelo sonho ou pela imaginação. 

Fernando A. F. Bini
Professor de História, de História da arte e Analista de arte - Fevereiro de 2001.

Poema em prosa para Constância Nery - Julieta de Andrade

Poema em prosa para Constância Nery

Verso I: A infância
Os quadros são estes, cheios de beleza; não fossem, aqui não estariam.
Quem os fez é assim: jeito de imensa ternura pelo ser humano, amor cristalino pela vida espontânea, pela natureza.
Aqui meninas giram em grande corrupio, em sentido oposto ao da roda anterior, nos cabelos, a infância correndo contra os sopros dos ventos. Nos braços, nas mãos dadas, nos pés, a pujança da expressão da vontade, a despeito da roda rompida. Na força da líder, olhos de inocência.
Verso II: O homem e a natureza
Constância, teus quadros são como a tua alma: completos porque conjugam sublimações em linguagem múltipla: poesia, arquitetura, música, pintura, por caminhos singelos da vida em si mesma.
Tua obra reflete um modo peculiar de aprender momentos do dia-a-dia para refundi-los em transparências de filós, compridas crenças processuais com velas e andores, cores quentes de frutos maduros emoldurados em folhas tropicais.
No centro, a figura humana, sentimento de gente, valorização do trabalho dos mais simples, homens elevados à perfeição franciscana interpretando o Hino à Vida, maior Bem que existe.
Verso III: A prece
Ave, Constância, cheia de graça!
Bendita seja pelo que fazes! Anjos dos quatro cantos estejam contigo e, sobre teus dias, ergam o translúcido Manto-Véu de Deus, que cobre os que penetram a beleza da Criação e a traduzem em obra humana, para enfeitar a Vida!
Reconhecida sejas; que os visitantes possam sentir, nos teus quadros, o resgate do valor dos heróis sem nome que a História não registra, mas que dão sentido à nossa Cultura.
Em 1991, quando as tardes 
de São Paulo começam a esfriar

Julieta de Andrade
(Julieta de Andrade é professora, advogada, escritora, musicista, doutorada em antropologia e especialista em pesquisa de cultura espontânea). Texto publicado em Catálogo da Galeria Jacques Ardies, São Paulo, Brasil. 1991

Olney Kruze


CONSTÂNCIA NÈRY - Poetisa, Pintora, Publicitária, Aluna Investigadora do Museu de Folclore de São Paulo

Após a trajetória como aluna  investigadora do Grupo do Professor Rossini Tavares de Lima, diretor do Museu de Folclore de São Paulo, inicia a parceria com o marchand Jacques Ardies).
No momento, a Galeria Cravo e Canela, sob a direção do marchand Jacques Ardies, está apresentando uma coletiva de artistas espontâneos (sua especialidade) , com obras de Waldomiro de Deus, Wal-de-Mar, Lise Forell, Barbara Xumaia, José Pinto e Constância Nery, esta última uma artista preocupada com as multidões que frequentam  os parques públicos das grandes cidades, dai misturar o sorveteiro com o pipoqueiro e crianças que brincam na grama com prédios ao  fundo.. No Museu participou de importantes exposições e exibiu obras relacionadas com o Folclore e as Tradições brasileiras, como "A Noiva Viúva", "Bicho Homem", "Folia de Reis", "Cavalhadas" ...  O acervo Cravo e Canela tem obras de Euridice Bressane, Gilvan, Silvia Chalreo e outros. Barbara Xumaia, Constância Nery, José Pinto, Lise Forell, Waldemar de Andrade e Waldomiro de Deus, são os artistas convidados pela Galeria Cravo e Canela e Jacques Ardies, para expor seus trabalhos até dia 18 de novembro, de terça a sábado das 10 às 21 horas, aos domingos das 16 às 22. 

Olney Kruze
jornalista e crítico de arte  – Jornal da Tarde, página 18.  
Jornal O Estado de São Paulo.São Paulo, 24/10/1979, 
Coluna "Divirta-se"

Texto de Stella Winniks

Constância Nèry - Os anos 1960 - Os tempos da libertação feminina.
Era o início dos anos 60/70 e só por essa informação você já pode imaginar a efervescência do período.  A pílula anticoncepcional recém começava a fazer parte da vida nacional, o governo  militar comandava, assim como a revolta armada; as discotecas proliferavam e a maioria das  mulheres engatinhavam no mercado de trabalho.  Entre estas profissionais pioneiras estava Constância Nèry.  Paulista de São José do Rio Preto, ela tinha se mudado para São Paulo e matriculara-se na primeira turma da Escola Paulista de Propaganda, que viria a se tornar a conceituada Escola Superior de Propaganda e Marketing. Constância estudou e trabalhou com figuras legendárias como o jornalista Renato Castelo Branco, Hélio Silveira da Motta, Sep Baendereck.  Trabalhou nas agências J. Walter Thompson, Denison Propaganda que foi o embrião da DPZ.  Quando já estava conhecida no mercado, Constância criou sua própria agência, a Constata Propaganda, que dirigiu por oito anos.  Em 94, quando a filha Andreana, então com 19 anos, começava os primeiros passos no mercado de trabalho, Constância resolveu investir em qualidade de vida e mudou-se para Curitiba-PR.  Tinha a percepção – que se revelou correta – que a filha teria melhores chances de crescimento na capital do Paraná.  Na época o marido, artista plástico, Cassio Mello, que expõe com frequência nas Galerias Portal, Bric-a-Brac, TelaBranca e no Salão Nobre do Jockey Club, em São Paulo, tinha recebido uma proposta de trabalho bem interessante em Curitiba.  Constância veio e ocupou os espaços:  hoje é colunista de arte da revista Vivre, diretora de comunicação da Associação Profissional dos Artistas Plásticos do Paraná, Diretora de Relações Públicas da União Brasileira dos Trovadores e do Elos Club - Comunidade Lusíada, artista plástica de produção incessante.  No momento, ela está concluindo uma série de óleos sôbre tela que têm como tema os hábitos e costumes na vida agrícola.  É bom lembrar que Constância é especialista em Arte Espontânea, um estilo que começou a ser catalogado no início do século passado, a partir das obras de Henry Rousseau.  Constância expõe na França, Israel, Estados Unidos, Alemanha, Bélgica, Brasil e faz parte do elenco da Galeria Jacques Ardies, seu marchand, belga especialista em Arte Espontânea, que dirige um dos espaços artísticos mais conceituados de São Paulo. 

Stella Winnikes
jornalista – www.lookhere.com.br  
Curitiba, Paraná, Brasil – página Top-Dicas
Publicado em Curitiba, Brasil - 2000

A mulher que botou ordem no caos


A MULHER QUE BOTOU ORDEM NO CAOS

Poucas pessoas conseguiram o que ela conseguiu. Não é pouco.
Ela transformou o que é complexo em mágica simples. Botou ordem no caos.
Se ela fosse apenas uma dona de casa, poderia dizer que seguiu uma receita, como quem faz um bolo ou um manjar.
Uma pitada de intuição, duzentas colheres de talento.
Mas essa simplificação, sem trocadilho com a imensidade do que é simples, se recusa a definir o que essa mulher é.
Talvez tudo começasse em Ipiguá, lugarejo meio perdido no mapa brasileiro e invisível  no mapa mundi. 
Quem sabe tudo viesse à tona em São Paulo, onde se viu obrigada a mesclar, como em uma receita nada doméstica, a guerreira publicitária e a fazedora de mágicas visuais.
Tantas eram as imagens que vinham da infância e das manifestações do folclore que ela vivenciou e que, estudando, nelas se aprofundou, que já não lhe bastava a conquista de clientes nacionais e multinacionais em sua agência de propaganda.
O cérebro fez cócegas, a mão se inquietou. O coração fez todo o resto.
Foram circos, quermesses, foram festas do povo, foi todo um mundo que desfilou ante seus olhos e, felizmente, diante de tantos privilegiados. Colegas de trabalho, amigos, galerias de arte.
O que é botar ordem no caos? Não tenho a resposta que a ela pertence.
Entendo que esse caos é a múltipla e, aos nossos olhos comuns, desordenada explosão de atos e movimentos de gente de carne e osso em seu dia-a-dia, no trabalho, nas comemorações. Momentos praticamente impossíveis de captar.
Então essa mulher pegou o pincel como quem arremata a batuta de um maestro. 
E aquelas visões que a nós pareciam a extrema confusão de idas e vindas, de gestos e posturas, de olhares e de meneios, passaram a ser flagrantes do que a vida esconde de quem não possui extremada visão. Mas que, para ela, estavam cristalizadas em um toque de tinta, em uma cor e um tom que retiram véus.
Mais que tudo: nada estava congelado. Ao contrário, pulsava com as sístoles e diástoles do coração.
Essa mulher um dia deu um beijo em São Paulo e foi abraçar Curitiba.
E, depois de conquistar a capital do Paraná com sua magia, acaba de fazer outra prestidigitação. 
Arrumou uma moldura portuguesa, junto com o marido José Cassio Mello, entrou dentro dela e aí ela está, ao encontro da Pátria-mãe dos brasileiros. 
Nos braços dessa terra, ela certamente vai encontrar e reencontrar as matrizes que deram ao Brasil o idioma, os costumes, o folclore e aquele jeito de ser que forma uma ponte, mágica mais uma vez, entre dois povos verdadeiramente irmãos.
O nome da mulher que botou ordem no caos não poderia ser outro. 
É Constância Nery. JAP, 2007. 

Dr. José Angelo Potiens
Escritor premiado. Romancista, contista, cronista, poeta. Livros publicados: O Evangelho de Marte; Canalha no Fio da Navalha; Papo de Anjo (romances); Livro O Despertar do Poema (poesia) recebeu Menção Honrosa no 14º Prêmio Literário Livraria Asabeça 2015. Membro da União Brasileira de Escritores.
Reside em São Paulo -  Brasil.

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